O Jogo da Invocação: por que é importante conhecer a história das coisas

O Jogo da Invocação (no original, All Fun and Games) é um daqueles filmes de terror que você olha no catálogo da plataforma de streaming e pensa: “Naahhhh, próximo!”, e segue “scrollando” a página. Se você é daqueles que procura por avaliações na internet então, vixe, piorou. Distribuído em circuitos cinematográficos e plataformas de vídeo sob demanda, o filme recebeu avaliações mistas – tendendo mais para o negativo – por parte da crítica e audiência, com pontuação inferior em agregadores como IMDb.

Lançado em 2023, o filme tem duração de aproximadamente 76 minutos (1h16min) e foi dirigido por Eren Celeboglu e Ari Costa. O roteiro ficou por conta de J.J. Braider, Eren Celeboglu e Ari Costa, enquanto a produção foi realizada pelas empresas AGBO (produtora ligada aos irmãos Russo), Anton e Goldenberg & Co.

A sinopse cadastrada no portal AdoroCinema é a seguinte:

“(…) um grupo de adolescentes de Salem descobre uma faca amaldiçoada que libera um demônio, que os força a jogar versões horríveis e mortais de jogos infantis onde não pode haver vencedores, apenas sobreviventes. Na trama aterrorizante, Billie (Natalia Dyer) e Marcus (Asa Butterfield) são irmãos que se envolvem no jogo demoníaco e perigoso que acaba indo longe demais. (…).”

A crítica ao filme em si não é o foco aqui, afinal, este é um blog de reflexões e aprendizagem. Portanto, vamos logo ao que nos interessa. Durante a narrativa de apresentação, a personagem Billie (Natalia Dyer) conta sobre o passado trágico de Salem e as pessoas que foram condenadas à morte por serem consideradas bruxas. Em seguida, ela conta que estes relatos são ignorados pelos mais velhos. Ou seja, as histórias são deliberadamente ocultadas por uma sociedade que tenta “esquecer” os erros do passado, deixando as novas gerações alheias aos acontecimentos de outro tempo.

Mesmo antes do lançamento do filme, temos um destaque sobre esse ponto. No trailer, entre os segundos 0:15 e 0:26, podemos ouvir a personagem pronunciar o seguinte texto: “Até pra gente, de Salem, eles não contaram a história toda. Talvez, se tivessem nos contado o que aconteceu, meu irmão teria deixado aquela faca onde ele achou”. Confira no vídeo abaixo:

Vídeo 1 – Trailer do filme O Jogo da Invocação (2023).
Fonte: Youtube.

Este será o nosso ponto de conversa. A personagem Billie começa o trailer fazendo uma reflexão sobre como aquela tragédia poderia ter sido evitada se a história das desgraças promovidas pelos antigos cidadãos de Salem não tivesse sido apagada. E isso me fez pensar em como o controle da narrativa ao longo da existência humana é um “buraco negro” complicado de lidar.

Sob uma perspectiva historiográfica, o controle da narrativa refere-se ao exercício de poder sobre a memória coletiva e a interpretação de eventos passados para legitimar estruturas políticas ou sociais no presente. Segundo Pollak (1989), a construção de uma memória oficial frequentemente acontece por meio do silenciamento de “memórias subterrâneas”, que são narrativas de grupos subalternos que desafiam a coesão de uma identidade nacional imposta pelo Estado.

Claro que esse processo não se limita à censura direta. É possível encontrarmos sinais desse controle na na seleção deliberada de quais fatos merecem ser arquivados e quais devem ser esquecidos. Conforme argumenta Ricoeur (2007), existe uma relação intrínseca entre o esquecimento e a justiça, onde o controle do que é narrado atua como uma ferramenta de dominação simbólica, moldando a consciência histórica de uma sociedade para evitar fissuras na ordem estabelecida. Portanto, enquanto crescemos e buscamos nos consolidar como seres sociais, somos inundados com inúmeras narrativas que moldam nossas crenças e idealizações de formas que às vezes nem imaginamos.

Quantas histórias de pessoas, lugares, nações ou eventos foram apagadas no curso de milhares de anos, seja pela ação do tempo, seja pela ação manipuladora de certos indivíduos em condições de poder? Quantas “verdades” nos foram “enfiadas goela abaixo” sem que tenhamos percebido isso? O quanto daquilo em que você acredita de fato aconteceu da forma como lhe contaram?

Essas perguntam não são fáceis de responder, especialmente quando não queremos nos aprofundar nas histórias. Destaco também a ciência histórica – popularmente conhecida como História (com H maiúsculo). As histórias que descobrimos quando estudamos a História é, muitas das vezes, desagradável e/ou conflitante com aquilo que cremos. Mas, e se esse algo desconfortável for importante para que você enfrente uma situação difícil futuramente? E se esse fato obscuro nos impedir, enquanto sociedade, de repetirmos os mesmos erros do passado? Não seria válido encarar face a face estes acontecimentos?

Podemos citar alguns exemplos no Brasil. O controle da narrativa foi um elemento amplamente sistematizado durante o Estado Novo (1937-1945) através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Conforme Capelato (1998), o regime varguista não apenas censurava a oposição, mas produzia ativamente uma iconografia e uma literatura escolar que apresentavam Getúlio Vargas como o “Pai dos Pobres”, fundindo a figura do líder com a própria identidade nacional.

Posteriormente, a Ditadura Militar (1964-1985) refinou esse controle ao utilizar a censura prévia e a propaganda ufanista, como o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Fico (2001) observa que o regime buscava gerir a percepção pública sobre a violência política, substituindo relatos de repressão por uma narrativa de progresso econômico e segurança interna. Esse controle estendia-se à historiografia oficial, que frequentemente ignorava conflitos sociais para enfatizar uma suposta índole pacífica do povo brasileiro.

A redemocratização trouxe consigo a possibilidade de lidarmos com essas camadas de silenciamento, resultando em disputas de memória que persistem até hoje. E lutas como estas são importantes para que não façamos as mesmas coisas erradas que nossos antepassados. Parafraseando a personagem Billie: talvez, se tivessem nos contado o que aconteceu, não teríamos feito isso ou aquilo.

Referências

CAPELATO, Maria Helena. Multidões em cena: propaganda política e construção de ritos de consenso no Brasil (1937-1945). Campinas: Papirus, 1998.

FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da Ditadura Militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.